Bastardas Inglórias

by - sábado, dezembro 19, 2015

   

CHEERS

   O conhecimento, ao mesmo tempo que é encarado como uma dádiva também pode ser responsável pelo senso de humor mais apurado. Talvez seja amadurecimento combinado com o pensamento de Paulo Freire: Mudamos porque aprendemos. Se não existe mudança de pensamento e atitudes, não existe aprendizado. 

   Eu não sei em que ponto exatamente tudo mudou. Sei que as coisas começaram no momento que acatei a idéia sobre o tema do meu tcc: O olhar da mãe biológica- Sentimentos e luto da mãe que entrega o filho em adoção. Para falar disso, eu teria que adentrar primeiramente sobre a história da mulher. Sinceramente, isso não me encantava, não me apetecia, era um tema como qualquer outro. Não sei quando, só sei de quando eu percebi que me aprofundei mais do que o necessário sobre a história do ser feminino.

   Peguei-me lendo e escrevendo cada vez mais sobre a temática com ajuda de Beauvoir e Badinter. E tudo o que eu pensava, todas as minhas atitudes, passaram a ser vigiadas com mais cautela. Eu já não era a mesma. Diferente do feminismo misândrico, descobri a verdadeira essência desse movimento, comecei a analisar o que estava em minha volta e a cada passo que dou, encontro sim preconceitos, encontro brecadas, encontro homens cobrando com que eu tenha filhos e que eu já esteja casada

   Todo dia é uma luta para mostrar que eu não sou apenas o produto de uma sociedade alienada machista inconsciente. O feminismo não exige mais direito à mulher do que ao homem e nem deseja impor superioridade entre os sexo, não prega violência. É bem mais sutil e pacifista que isso: busca uma relação de pariedade entre o feminino e o masculino.

   Já fui vitima inúmeras vezes: fui encoxada no ônibus, não me deixaram manifestar meus pensamentos por ser mulher, falam que eu já deveria ter filhos e ser casada. Não só eu como quem está ao meu redor: minha mãe por ser separada, minha irmã por ser mulher não é promovida no emprego, a mulher que ainda é tida como propriedade do homem, a mulher que fala palavrão, que usa roupa curta, batom vermelho e que dá pra quem quiser. Todas de alguma forma são putas e indignas aos olhos do senso comum.

   Independente do que eu faça, do que minhas amigas e familiares façam, todas somos condenadas e execradas. Agora eu percebo, percebo na sutileza de cada olhar, de cada palavra e expressão corporal. O moralismo hipócrita se esconde e está impregnado em cada canto, interno ou externo em relação ao que eu sou. Está na música, está em artigos porcos escrito em revistas femininas, está lá não propriamente na religião, mas em que interpreta ela, em cada julgamento  de minha postura.

   Tudo me faz puta. É como se a prostituta fosse indigna de humanidade e piedade alheia, como se não tivesse algo bom, personalidade e direitos. O sexo ainda é tabu e por isso ainda somos"ofendidas" com adjetivos relacionados aos comportamentos sexuais. Não poderia discordar de Freud nesse momento: tudo se resume a sexo. 

   Se a nossa liberdade de pensamento e atitudes nos adjetivam de tal forma, sejamos todas prostitutas em busca dos nossos direitos e respeito. 

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